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Escrito, Inspiração

“Testemunha”

[Relato inspirado na “convivência” real, tendo também como base uma observação profunda e apurada do comportamento de um ex-penitenciário que, pelo simples capricho do acaso, ou seria mais correto dizer Deus?!, fez com que cruzássemos os mesmos caminhos por um breve período de tempo.] 

De certo que, apesar do otimismo e simpatia assombrosos, havia algo de errado em seu olhar, algo que não era o brilho de suas pupilas quando o efeito das substâncias químicas invadiam seu cérebro, não, era algo mais, uma outra coisa, algo que eu podia perceber no imediato instante em que me deparava com sua presença. Seu olhos tinham um ar de quem tinham presenciado e vivenciado um profundo sofrimento. E apesar do fingimento que ele oferecia para si e para os outros, sua alma o traía, resvalando a verdade através do aspecto selvagem de seus olhos castanho-escuros, carregados com suas pupilas dilatadas, negras como piche. Uma expressão tão poderosa que me assaltava e me sugava como se fossem poderosos redemoinhos. Se ele fosse uma casa, uma de suas janelas estaria quebrada, e a porta, escancarada. Parecia que ele tinha sido arrombado e roubado.

Vivia a maior parte do tempo entorpecido por doses severas de álcool. Para ele, beber era como apertar sua própria bomba de morfina. Um método adotado depois dos horrores vividos na selva do cárcere. Ao que parece, esse comportamento se assimilava mais como uma doutrinação ás avessas, uma forma que encontrou para “sobreviver”, uma maneira que achou para não enlouquecer de vez. E uma vez que, experimentado de tal regojizo, não conseguiu mais parar. Acho que na cabeça dele, não tinha acabado. Ainda estava acontecendo. As cenas se repetindo como se fossem uma fita cassete infinita, com o botão do replay sendo estuprado e atolado para dentro do controle remoto. Condenado eternamente a tortura mental e psicológica.

A impressão que dava, era que sua mente tinha literalmente quebrado, e que ele estava tentando desesperadamente encontrar um meio de consertá-la, de achar as respostas certas para sua própria charada, enquanto que, ao mesmo passo, lutava arduamente para manter um pé na realidade.

Posso falar todas essas coisas porque fui uma das poucas testemunhas que realmente se deu conta do que se passava na cabeça daquele homem, da guerra que estava sendo travada no interior de sua mente, uma guerra que ele estava perdendo com muita facilidade. Seu lado racional estava deteriorando rapidamente e sendo massacrado pelo seu lado irracional violentamente e sem nenhuma piedade.

Aquele homem necessitava de um merecido descanso dele mesmo, se é que isso faz algum sentido para você. Pois qualquer um que se esforçasse um pouco, poderia ver que aquela alma moribunda andava fazendo horas extras revivendo inconscientemente seus traumas. Não era preciso ser nenhum especialista para notar que aquele homem foi esfolado vivo emocionalmente, decapitado e crucificado de cabeça para baixo, assim como o apóstolo Bartolomeu, de acordo com várias lendas, mas apenas de forma metafórica no mundo moderno de hoje e agora.

Talvez meu maior ressentimento, tenha vindo do fato de que não havia muito que eu pudesse fazer para ajudá-lo na época. O que eu poderia fazer, senão sentar e ouvir? Estar presente. De qualquer forma, eu me esforcei solenemente e ofereci minha profunda e sincera compaixão. Ainda assim, espero que tenha sido suficiente.

Então depois de muito refletir e pensar, eu decidi escrever algo que relatasse o privilégio de ter conhecido uma pessoa tão assombrosa e rica quanto você. Porque apesar de minha descrição acima soar um pouco pesada, exagerada e insana, pude perceber também que sua loucura estava banhada em luz. Só alguém que andou pelas ruas pavimentadas do inferno, pode realmente saber o significado de sentir a dor no seu aspecto mais puro e real. Espero que aonde quer que você esteja, encontre a paz.

Uma homenagem a Alex Moreira Cajé, um amigo e companheiro que me ensinou que o humor, a fé e a perseverança são as chaves certas para lutar contra o desespero e a negatividade presentes em nosso dia-a-dia.

Escrito

O Diabo é o Pai do Rock

*Antes de mais nada, saio em minha defesa para deixar bem claro que o texto que venho a publicar mais abaixo não é de minha autoria. Encontrei-o em uma de minhas navegadas pela web, mais precisamente num site de monólogos, e resolvo agora compartilhar com vocês. Em parte porque sou uma pessoa bastante eclética e curto muito um bom rock, e em parte porque a pessoa de autoria soube muito bem utilizar de suas palavras para explicar o que há muito tempo eu também vinha tentando dizer aos preconceituosos de plantão. Sim, aqueles que saem por aí ladrando e julgando tudo e a todos sem procurar conhecer uma ínfima parcela do assunto ou do sujeito. Essa é pra vocês!

É triste, mas pouca gente entende a ironia de Raul. Já faz parte do imaginário popular pensar que rockeiro é drogado, baderneiro e satanista, mesmo que você não conheça um único rockeiro que seja tudo isso.  Minha mãe é a primeira a arregalar os olhos quando digo que vou para um show de rock. Ela imagina todos aqueles homens cabeludos vestidos de preto, tocando uma música barulhenta, enquanto todos os outros cabeludos balançam a cabeça. Provavelmente pensa que vou ser esmagada ou pisoteada durante uma roda punk, quando, na realidade, eu permaneço praticamente intocada dentro de um círculo invisível de proteção. Chega a ser irritante ouvir os caras falando o tempo todo: “ó a menina aí”, “cuidado com a menina”, como se eu fosse de vidro, mas só essa preocupação já é uma amostra de como os rockeiros são gente finíssima.

As rodas punks, ao contrário do que se pensa, não são uma manifestação gratuita de violência. São muito mais uma catarse coletiva onde as pessoas liberam toda aquela energia que está sendo absorvida pela música. A vibração é tão grande que é preciso extravasar, libertar os demônios (vê? libertar, não invocar). É claro que nessa brincadeira todo mundo acaba levando pelo menos uma cotovelada ou um “pisão” no pé, mas se alguém cai, tem sempre uma mão vinda não-se-sabe-de-onde pra te levantar.

Um dia desses, quando eu voltava de um show, o taxista começou a falar sobre como eu devia tomar cuidado com esses lugares, de como os rockeiros só vivem chapados e não querem nada com a vida. O irônico é que ele estava ouvindo um DVD de Whitney Houston, aquela da música “I will always love youuuuuu” do filme do guarda costas (deve ser o único sucesso dela), que curiosamente tinha acabado de morrer por overdose de cocaína. Fiquei de cara com o preconceito, ou com o conceito que ele achava que tinha sobre algo que ele provavelmente jamais havia experimentado (o rock, não as drogas).

Mas a verdade é que arte e drogas sempre andaram juntas.  As substâncias se diversificaram, algumas só mudaram de nome, mas grande parte da produção criativa da humanidade nem mesmo existiria se não fossem por elas. Eu, particularmente, agradeço ao LSD por músicas como “Shine on you crazy diamond”, do Pink Floyd, e por tantas outras do Bob Dylan, Rolling Stones e até mesmo dos próprios Beatles.

Quanto ao satanismo, convenhamos, é uma crença como outra qualquer. Assim como existe o rock cristão, também existe o rock satânico, que, aliás, atende por nomes bastante sugestivos, como Black e Death Metal, para que você não seja pego de surpresa.  Entenda, não se trata de uma regra, é apenas a beleza da democracia e da liberdade de expressão¹, que permite que as pessoas escrevam músicas sobre qualquer coisa, inclusive sobre bundinhas e garrafas. Não falo isso com desdém, acredite, o sexo é um elemento recorrente na história da música e da arte em geral, justamente por ser uma linguagem universal. Digamos apenas que alguns compositores são, hm… mais refinados do que outros.

Se o diabo é o pai do rock, então ele é também o pai do funk, do axé, do pop e da bossa nova. Mas Raul, apesar de incompreendido, já havia alertado: “Existem dois diabos, só que um parou na pista/Um deles é o do toque, o outro é aquele do exorcista”. O diabo do toque é o diabo do conhecimento, da lucidez, da resistência e da liberdade do pensamento. Einstein provavelmente curtia esse toque, o Freud também. Mas se por acaso você venha a ter com o “outro” demônio, aí meu amigo, a culpa não é do rock não!

¹ DEIXA EU FALAR, FILHA DA PUTA!

Por: 

Escrito

Porque Eu Me Importo?!

Quando criança, era de praxe ouvir-se uma discussão acirrada dos meus vizinhos que moravam ao lado, todo fim de semana. Bastava o domingo raiar que eles começavam logo cedo a se estranharem. No começo, nada de mais, pequenas discussões acompanhadas de insultos, mas depois as coisas foram se intensificando para algo maior, como agressões físicas. Passado um tempo a rua inteira já estava a par da situação do casal. A violência já não se limitava mais as quatro paredes daquela residência. A avenida se tornara palco para aqueles que tem sede e fome de assistirem a uma certa destruiçãozinha. Eu como todos, observava todo o desenrolar daquelas cenas nada agradáveis, daquele perverso show de horrores. Escondido por trás da saia de minha mãe, apertava o braço dela e perguntava “mas ninguém vai fazer nada para ajudá-la?” e como recompensa recebia um “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” como resposta. Não é preciso ser nenhum sábio para saber que eu abominava aquele ato, que o achava inaceitável. Algumas semanas depois, na escola, um garoto com mais ou menos a minha idade sofria bullying por ter o peso acima da média, e adivinhem? Os professores e os outros alunos faziam vista grossa frente ao problema e se limitavam em tomar uma atitude que resolvesse a situação e acabasse de vez com as provocações.

Com o tempo, eu passei a repudiar os indivíduos que praticavam a violência ou qualquer tipo de dano psicológico, moral ou físico a outras pessoas. Me enojava o tipo de ser humano que usava de provocações baratas ou piadas para rebaixar ou menosprezar alguém em particular. Pessoas que usam a sua força como meio de intimidar, que se valem dos meios mais sujos e desprezíveis para obter o que querem, eram tidas por mim como seres quebrados, vazios e desmerecidos de compaixão ou piedade. Mas com o tempo eu percebi que esse tipo de pessoa não é grande problema do mundo ou o grande mal da sociedade. Existe um tipo mais perverso e insensível de ser humano. Você está duvidando de mim? Calma lá rapaz, vou lhe explicar direitinho. Recordando uma célebre frase de um escritor e poeta do qual eu já não lembro mais o nome: “Há dois tipos de pessoas ruins no mundo, as que fazem maldades e as que vêem o mal sendo feito e não fazem nada.” E creio, que para mim, o segundo tipo de pessoa são as mais perversas, pois assistem de camarote a insossa e cruel realidade que arrebata o próximo, sem se sentirem nada empáticas ou solidárias com as outras pessoas.

Durante muito tempo, eu pensei que ruins eram apenas aqueles que ameaçavam, assassinavam, roubavam , estupravam, mentiam, manipulavam e usavam de sua própria boa fé contra você mesmo. Mas eu percebi que a violência deles era aceitável, pois combinava com a personalidade que eles tinham, fazia parte do que eles eram. E que, ainda pior do que todas essas pessoas que agem assim, são as pessoas que assistem a tudo isso sem mover um dedo. Somos NÓS, os negligentes. Passei a entender que a verdadeira violência é ignorar o que acontece a nossa volta, bem diante de nossos olhos, quando na verdade podemos fazer bem mais do que imaginamos que podemos fazer. Você pode até querer se defender dizendo “sou uma pessoa boa, não pratico esse tipo de comportamento em meu cotidiano. sou limpo e justo perante os olhos do Pai.” Mas e quanto a sua vizinha que é violentada e abusada pelo marido semanalmente em sua rua? E sobre o garotinho desconfiado e cabisbaixo que sofre diariamente com os insultos dentro e fora da sala de aula, que perde o recreio escondido no banheiro, como refúgio do inferno fabricado pelos outros? E se você ainda preferir, qual foi o fim daqueles pobres gatinhos que no caminho de volta, da escola pra casa, você testemunhou dentro de uma caixa pequena de papelão nas mãos daquele homem grandão e sem nenhum brilho de vida nos olhos, prestes a ser arremessada dentro de um canal aberto que atravessa a cidade? Você fez algo a respeito, hein? Não? Nada? Pois é.

Você pode ver claramente que quase sempre podemos fazer alguma coisa, que algumas vezes, podemos mover a mão do destino e transformar e moldar as circunstâncias e realidades, deixando-as melhores. Mas escolhemos não fazer nada. Sentamos e assistimos, como um espectador conformado, o fim do mundo acontecer. E de que adianta? Porque se preocupar? Você pode simplesmente fechar os olhos e fingir que nada acontece. É uma escolha sua. De todo modo, pode ser que amanhã você passe da condição de espectador para vítima. As possibilidades existem e estão aí. Portanto, MOVA-SE! Tenha alguma ação, você não é uma árvore. Pare de ser tão cruel quanto aqueles que são os responsáveis pela barbárie de nossa sociedade, pare de contribuir involuntariamente para que a violência continue, pare de fazer vista grossa, e pela primeira vez, enxergue o que acontece a sua volta. O mundo precisa urgentemente de você.

Está nas suas mãos. A escolha é sua. Decida.

Escrito, Inspiração

“Sinta a Dor”

Eu nunca fiz terapia nem tomei remédios, mas não tenho nada contra. A verdade é que muitas coisas aconteceram comigo, coisas boas e ruins. E eu precisaria de muitas palavras para explicar, mais palavras do que sou capaz de dizer.

Nunca fui uma pessoa violenta nem nada do tipo, embora conservasse uma revolta e inquietação ferrenha dentro de mim. Em segredo, sempre estive lidando com a depressão e ansiedade em meu interior. Sim, eu passo por crises de depressão e oscilações de humor regularmente, acho que é por isso que eu vejo o mundo por um ângulo diferente de como a maioria das pessoas vê. Também sou muito sensível.

No bairro em que cresci e do qual eu passei a maior parte de minha infância e adolescência, essas não eram características dignas de serem exibidas, de modo que as escondi por um longo tempo em minha vida. Eu fingia que não era quem eu era e, quando alguém tentava se aproximar de mim, eu escondia e não falava sobre isso abertamente. Em um bairro do qual eu fiz parte, você não fala abertamente sobre essas coisas. Houve momentos nos quais eu sentia que não tinha lugar pra mim no mundo. Muitas vezes, me sentia uma aberração ou um pária, embora eu fosse realmente bom em me integrar e interagir com as pessoas ao meu redor.

Eu achava vergonhoso falar de meus sentimentos e achava vergonhoso me sentir da forma como eu me sentia. Minha adolescência acabou sendo muito confusa e com bastante carga emocional por causa disso. Eu reprimia e ocultava o que sentia, porque pra sociedade ter sentimentos é uma coisa anormal. Pra sociedade não é bom que você ande por aí deprimido e cabisbaixo. Você logo virá um alvo fácil de críticas e julgamentos dos mais diversos e absurdos. Pra sociedade não é bom que você fale sobre esses assuntos, porque tudo que você tem que fazer é ser uma ovelha e obedecer. Fazer parte do rebanho. Vestir seu sorriso mais convincente e fingir descaradamente que está tudo bem, que não tem nada de errado.

Existe uma necessidade muito grande no mundo de se falar mais abertamente sobre esses assuntos, sobre doenças mentais. Porque se você parar e observar as pessoas na rua, você vai notar que quase todo mundo está no mesmo barco. Vai perceber os tiques nervosos, os olhares assustados, os passos apressados rumo a lugar-nenhum revelando a ansiedade intensa. E se você se esforçar um pouquinho mais, poderá notar também como é forte o ruído mental na cabeça de todas essas pessoas. Você cairá em si e verá que há muitos outros indivíduos lutando contra essas doenças o tempo todo. Daí a nossa urgência de ter mais conversas sobre esse assunto, porque muita gente tem estes problemas e se identifica bastante com esse tipo de temática, só se sentem um pouco inibidas para se abrirem de primeira. 

É interessante e desafiador falar sobre doenças mentais; e não estou me limitando aqui somente a doenças já popularmente conhecidas como a depressão e a ansiedade, mas a qualquer tipo de emoção conflitante que te impeça de aproveitar o momento PRESENTE, assim como ele é, livre de julgamentos, porque pode nos levar a um inicio de uma importante conversa; e é um ótimo ponto de partida para as pessoas dizerem “eu também”, o meu irmão, ou minha irmã, ou minha mãe. Em algum momento todo mundo se identifica.

Na maior parte do decorrer da vida, as pessoas percebem que há algo de errado com elas e com o mundo, mas preferem ignorar. Eu acho que de vez em quando devemos nos presentear com um belo de um tapa na cara, como quem diz: “Ei louco, acorde!”. Precisamos nos forçar a ver que não estamos felizes, que estamos levando uma vida morna e deprimente, que temos problemas sérios de ansiedade e que realmente não estamos vivemos da forma que queremos. Isso é uma coisa muito difícil de admitir, mas temos que fazer, não há outro jeito. Acredito que se você quer alcançar a verdade, você tem que estar vulnerável. Se você quer crescer, se quiser descobrir quem você é, se quiser crescer emocionalmente, você tem que ser vulnerável. Tem que admitir que está fragilizado e começar a trabalhar. É nosso dever pegar tudo que está dando errado e fazer dar certo. Devemos tentar de qualquer forma. Porque é pela sua rachadura que a luz penetra em você. Então, dê uma chance a nós, os desajustados. Dê uma chance pra si mesmo, porque como eu disse antes, estamos todos no mesmo barco.

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