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Escrito

Escrito, Inspiração

Agora ou Nunca

*Para se ler pausadamente ao som de Off I Go de Greg Laswell.

As pessoas passam muito tempo focadas no futuro. Planejando-o, trabalhando por ele. Mas, em algum momento, começamos a perceber que a vida está acontecendo agora. Não é depois da faculdade ou após o matrimônio, é AGORA, nesse exato instante. Mas o passado parece tão mais inebriante, que somos arrastados de volta até ele em questão de segundos, sem nenhum tipo de resistência. E o futuro nos soa tão promissor, que nos perdemos em meio ao roldão de devaneios dentro de nossas pequenas cabeças. O momento presente parece não existir. Parece ser algo distante e utópico. Destruímos nosso momento presente com ruminações passadas e futuras. Enjaulamos nossa sensibilidade num frasco e dizemos para nós mesmos que está tudo bem em ser uma pessoa fria, negligente, e egoísta perante aqueles que estão a nossa volta. Nossos interesses é que tem que estar em primeiro lugar. O emprego dos sonhos, o aparência perfeita, o namorado incrível, o carro do ano e por aí vamos…

Priorizamos o superficial e esquecemos o essencial. Empurramos nossos valores para debaixo do tapete ou para dentro de uma lata de lixo e ensaiamos nosso melhor sorriso de contentamento. Porque o seu “EU” é prioridade máxima. Seu ego é quem manda, quem dita as regras. Mas não demora muito para perceber que as aparências também são passageiras e esquecidas. Varridas pelo tempo.

E então, você já disse? “Eu te amo”, “Você é importante para mim”, “Eu me inspiro em você”, “Você mudou a minha vida”. Você já disse? Não, não disse. Porque sua mente não vive no aqui e agora. Você não está acordado. 

Faça um planejamento. Se fixe num objetivo. Trabalhe por ele. Mas, de vez em quando, olhe ao seu redor. ENXERGUE. PERCEBA. Porque a vida é isso. E amanhã, tudo pode ser nada.

É isso aí, está acontecendo. E se a gente piscar os olhos, já foi.

Escrito, Inspiração

Queda, Cura e Ascensão

“Eu estou morto? Ou esse é um desses sonhos? Aqueles sonhos horríveis que parecem que vão durar para sempre? Se estou vivo, por que? Se existe um Deus ou algo parecido, que seja, em algum lugar, porque fui abandonado por todos e por tudo o que eu conhecia? Eu já amei? Esquecido. Qual é a lição? Qual é o sentido? Deus, me dê um sinal, ou eu tenho que desistir. Não posso mais fazer isso. Por favor, deixe-me morrer. Viver dói demais.” — Kesha

 Essas palavras que vou lhes confidenciar gora, podem soar como algum tipo de desabafo. Eu não me importo mais com esse tipo de julgamento, enxergue como quiser. O mais importante é saber que eu estou canalizando os meus sentimentos de desesperança e depressão severas para superar os obstáculos e encontrar forças em mim mesmo, ainda que meu ânimo esteja abalado. Este escrito é também sobre vir a sentir empatia por outra pessoa, até mesmo por aquelas te machucaram ou te prejudicaram gravemente. É sobre aprender a se orgulhar das suas cicatrizes, da pessoa que você está se tornando ou de quem você já é, mesmo nos momentos mais difíceis e baixos da vida, quando se sente realmente sozinho e sem forças. É sobre esperar que TODOS, mesmo alguém que te feriu profundamente, possa encontrar a paz e a libertação.

Descobri recentemente que meu modo de vida e a maneira como eu enxergava as coisas era um lugar de paz inalcançável. Eu sei que nunca fui abandonado por meus amigos, minha família e meus colegas, mas quando você está deprimido — realmente, verdadeiramente deprimido — você sente que não tem nada dentro de si, se sente oco, vazio. Mesmo tendo um apoio muito forte das pessoas ao meu redor nas minhas horas mais sombrias, ainda não era suficiente para me trazer para a luz. É nesses momentos em que os mais hipócritas e orgulhosos entre nós são forçados a recorrer a algo além de si mesmo — nos voltamos para a oração, ou algo assim. Você olha além da sua vergonha, do seu desejo de esconder o conflito, e admite que você precisa de ajuda. Para mim, Deus não é um homem barbudo sentado nas nuvens ou um tirano homofóbico julgador que espera enviar todos a condenação eterna. Deus é a natureza, o espaço, a energia e o universo. Minha própria interpretação da espiritualidade não é importante, porque todos nós temos a nossa. O que importa é que eu tenho algo maior do que a mim mesmo como uma força que me ajuda a trazer a paz e o equilíbrio.

Está é uma das razões pelas quais eu adoro escrever, ficar mergulhado no infinito das palavras simplesmente me ajuda a relaxar, a extravasar a tensão. É  a minha maior forma de rendição ao universo, uma oração de corpo e alma. Eu falo sobre escrever porque é como eu canalizo meus sentimentos e emoções, é como eu crio, mas talvez para você o processo possa se dar através de algo diferente, como artes, música, meditação, dança, jogos, tecnologia, projetos pessoais, projetos colaborativos ou qualquer outra coisa. O que importa é a canalização do que você sente: do medo, da injustiça, da crise, do que está te consumindo por dentro, enfim. Sendo construtivo e não destrutivo — o que importa é que seja um processo de cura e não de eutanásia. Isto é sobre encontrar a paz no fato de que você não pode controlar tudo — porque tentar controlar tudo e a todos estava me matando. Trata-se de aprender a deixar ir e perceber que o universo está no controle do nosso destino, e não a gente.

Arrastei-me para fora da cama e passei meus conflitos para o papel. É a partir de nossos momentos mais sombrios que ganhamos o máximo de força. Já havia tantos dias, meses até, que eu vinha vivendo em uma neblina, desejando não me levantar da cama pela manhã, passando os dias acompanhado de uma fadiga e sobrecarga mental pesadas. E quando finalmente chegava a noite e eu adormecia, era acometido por pesadelos terríveis, em que eu acordava afobado e em pânico no escuro. Nunca estive em paz, noite ou dia. Mas eu arrastei-me para fora da cama e canalizei minhas emoções, trabalhando-as firmemente, transformando-as e resumindo-as nas palavras que você lê agora.

Espero que minha mensagem atinja as pessoas que estão no meio de suas lutas, para que saibam que não importa o quão ruim possa parecer agora, você pode passar por isso. Se você tem amor e fé ao seu lado, você nunca será derrotado. Não desista de você. Uma hora hora você vai perceber aquele momento em que o sol começa a aparecer sob as nuvens de tempestade mais sombrias, criando o arco-íris mais bonito. E uma vez que você perceber que você está bem de novo, vai querer espalhar o amor e a cura.

Se você sentir que alguém o magoou, livre-se desse ódio, porque isso só criará mais negatividade. Uma coisa que me traz grande alívio é rezar por essas pessoas. Ficar irritado e ressentido não fará nada além de aumentar seu próprio estresse e ansiedade — e o ódio é o combustível que produz os vírus que atacam sua alma. Não deixe ninguém roubar sua felicidade!

Nos últimos 3 anos, cresci como uma pessoa forte e independente. Eu percebi através dessa longa jornada de altos e baixos que, se eu tive a sorte de ter uma voz que as pessoas escutem, então eu deveria usá-la para a verdade.

Eu luto diariamente com a depressão e ansiedade intensa, um transtorno de estresse implacável e todas as outras besteiras básicas que podem ser acarretadas por um ser humano. Eu sei que não estou sozinho nessa batalha. Encontrar forças para se expor sobre essas coisas não é fácil, mas eu quero ajudar outros que estão passando por momentos difíceis em suas vidas.

Posso dizer que eu fiquei abençoado e honrado por ter ao meu lado muitas pessoas incríveis que me ajudaram a atravessar o oásis de minha aflição, me ajudando a perceber a visão benéfica desse processo. Obrigado a todos por esse passo gigante. Isto é apenas o começo. Posso dizer agora que estou mais leve, feliz e grato por começar e compartilhar toda a dor contida aqui dentro. Eu escrevi esse registro, que revela minhas vulnerabilidades, para mostrar que há uma força muito forte em nossas fraquezas e apoiar e incentivar outros como eu. No passado, sempre senti como se estivesse tentando provar algo, tentando ser alguém que achava que as pessoas queriam que eu fosse, mas nesse registro, estou apenas falando a verdade sobre minha vida. Isto sou eu. As palavras mais reais e sinceras que eu já criei, e agora é o meu presente para você. Espero que você goste disso. Obrigado por não desistirem de mim. Nós fizemos isso. Eu amo muito todos vocês.

 

Escrito, Inspiração

“Testemunha”

[Relato inspirado na “convivência” real, tendo também como base uma observação profunda e apurada do comportamento de um ex-penitenciário que, pelo simples capricho do acaso, ou seria mais correto dizer Deus?!, fez com que cruzássemos os mesmos caminhos por um breve período de tempo.] 

De certo que, apesar do otimismo e simpatia assombrosos, havia algo de errado em seu olhar, algo que não era o brilho de suas pupilas quando o efeito das substâncias químicas invadiam seu cérebro, não, era algo mais, uma outra coisa, algo que eu podia perceber no imediato instante em que me deparava com sua presença. Seu olhos tinham um ar de quem tinham presenciado e vivenciado um profundo sofrimento. E apesar do fingimento que ele oferecia para si e para os outros, sua alma o traía, resvalando a verdade através do aspecto selvagem de seus olhos castanho-escuros, carregados com suas pupilas dilatadas, negras como piche. Uma expressão tão poderosa que me assaltava e me sugava como se fossem poderosos redemoinhos. Se ele fosse uma casa, uma de suas janelas estaria quebrada, e a porta, escancarada. Parecia que ele tinha sido arrombado e roubado.

Vivia a maior parte do tempo entorpecido por doses severas de álcool. Para ele, beber era como apertar sua própria bomba de morfina. Um método adotado depois dos horrores vividos na selva do cárcere. Ao que parece, esse comportamento se assimilava mais como uma doutrinação ás avessas, uma forma que encontrou para “sobreviver”, uma maneira que achou para não enlouquecer de vez. E uma vez que, experimentado de tal regojizo, não conseguiu mais parar. Acho que na cabeça dele, não tinha acabado. Ainda estava acontecendo. As cenas se repetindo como se fossem uma fita cassete infinita, com o botão do replay sendo estuprado e atolado para dentro do controle remoto. Condenado eternamente a tortura mental e psicológica.

A impressão que dava, era que sua mente tinha literalmente quebrado, e que ele estava tentando desesperadamente encontrar um meio de consertá-la, de achar as respostas certas para sua própria charada, enquanto que, ao mesmo passo, lutava arduamente para manter um pé na realidade.

Posso falar todas essas coisas porque fui uma das poucas testemunhas que realmente se deu conta do que se passava na cabeça daquele homem, da guerra que estava sendo travada no interior de sua mente, uma guerra que ele estava perdendo com muita facilidade. Seu lado racional estava deteriorando rapidamente e sendo massacrado pelo seu lado irracional violentamente e sem nenhuma piedade.

Aquele homem necessitava de um merecido descanso dele mesmo, se é que isso faz algum sentido para você. Pois qualquer um que se esforçasse um pouco, poderia ver que aquela alma moribunda andava fazendo horas extras revivendo inconscientemente seus traumas. Não era preciso ser nenhum especialista para notar que aquele homem foi esfolado vivo emocionalmente, decapitado e crucificado de cabeça para baixo, assim como o apóstolo Bartolomeu, de acordo com várias lendas, mas apenas de forma metafórica no mundo moderno de hoje e agora.

Talvez meu maior ressentimento, tenha vindo do fato de que não havia muito que eu pudesse fazer para ajudá-lo na época. O que eu poderia fazer, senão sentar e ouvir? Estar presente. De qualquer forma, eu me esforcei solenemente e ofereci minha profunda e sincera compaixão. Ainda assim, espero que tenha sido suficiente.

Então depois de muito refletir e pensar, eu decidi escrever algo que relatasse o privilégio de ter conhecido uma pessoa tão assombrosa e rica quanto você. Porque apesar de minha descrição acima soar um pouco pesada, exagerada e insana, pude perceber também que sua loucura estava banhada em luz. Só alguém que andou pelas ruas pavimentadas do inferno, pode realmente saber o significado de sentir a dor no seu aspecto mais puro e real. Espero que aonde quer que você esteja, encontre a paz.

Uma homenagem a Alex Moreira Cajé, um amigo e companheiro que me ensinou que o humor, a fé e a perseverança são as chaves certas para lutar contra o desespero e a negatividade presentes em nosso dia-a-dia.

Escrito

O Diabo é o Pai do Rock

*Antes de mais nada, saio em minha defesa para deixar bem claro que o texto que venho a publicar mais abaixo não é de minha autoria. Encontrei-o em uma de minhas navegadas pela web, mais precisamente num site de monólogos, e resolvo agora compartilhar com vocês. Em parte porque sou uma pessoa bastante eclética e curto muito um bom rock, e em parte porque a pessoa de autoria soube muito bem utilizar de suas palavras para explicar o que há muito tempo eu também vinha tentando dizer aos preconceituosos de plantão. Sim, aqueles que saem por aí ladrando e julgando tudo e a todos sem procurar conhecer uma ínfima parcela do assunto ou do sujeito. Essa é pra vocês!

É triste, mas pouca gente entende a ironia de Raul. Já faz parte do imaginário popular pensar que rockeiro é drogado, baderneiro e satanista, mesmo que você não conheça um único rockeiro que seja tudo isso.  Minha mãe é a primeira a arregalar os olhos quando digo que vou para um show de rock. Ela imagina todos aqueles homens cabeludos vestidos de preto, tocando uma música barulhenta, enquanto todos os outros cabeludos balançam a cabeça. Provavelmente pensa que vou ser esmagada ou pisoteada durante uma roda punk, quando, na realidade, eu permaneço praticamente intocada dentro de um círculo invisível de proteção. Chega a ser irritante ouvir os caras falando o tempo todo: “ó a menina aí”, “cuidado com a menina”, como se eu fosse de vidro, mas só essa preocupação já é uma amostra de como os rockeiros são gente finíssima.

As rodas punks, ao contrário do que se pensa, não são uma manifestação gratuita de violência. São muito mais uma catarse coletiva onde as pessoas liberam toda aquela energia que está sendo absorvida pela música. A vibração é tão grande que é preciso extravasar, libertar os demônios (vê? libertar, não invocar). É claro que nessa brincadeira todo mundo acaba levando pelo menos uma cotovelada ou um “pisão” no pé, mas se alguém cai, tem sempre uma mão vinda não-se-sabe-de-onde pra te levantar.

Um dia desses, quando eu voltava de um show, o taxista começou a falar sobre como eu devia tomar cuidado com esses lugares, de como os rockeiros só vivem chapados e não querem nada com a vida. O irônico é que ele estava ouvindo um DVD de Whitney Houston, aquela da música “I will always love youuuuuu” do filme do guarda costas (deve ser o único sucesso dela), que curiosamente tinha acabado de morrer por overdose de cocaína. Fiquei de cara com o preconceito, ou com o conceito que ele achava que tinha sobre algo que ele provavelmente jamais havia experimentado (o rock, não as drogas).

Mas a verdade é que arte e drogas sempre andaram juntas.  As substâncias se diversificaram, algumas só mudaram de nome, mas grande parte da produção criativa da humanidade nem mesmo existiria se não fossem por elas. Eu, particularmente, agradeço ao LSD por músicas como “Shine on you crazy diamond”, do Pink Floyd, e por tantas outras do Bob Dylan, Rolling Stones e até mesmo dos próprios Beatles.

Quanto ao satanismo, convenhamos, é uma crença como outra qualquer. Assim como existe o rock cristão, também existe o rock satânico, que, aliás, atende por nomes bastante sugestivos, como Black e Death Metal, para que você não seja pego de surpresa.  Entenda, não se trata de uma regra, é apenas a beleza da democracia e da liberdade de expressão¹, que permite que as pessoas escrevam músicas sobre qualquer coisa, inclusive sobre bundinhas e garrafas. Não falo isso com desdém, acredite, o sexo é um elemento recorrente na história da música e da arte em geral, justamente por ser uma linguagem universal. Digamos apenas que alguns compositores são, hm… mais refinados do que outros.

Se o diabo é o pai do rock, então ele é também o pai do funk, do axé, do pop e da bossa nova. Mas Raul, apesar de incompreendido, já havia alertado: “Existem dois diabos, só que um parou na pista/Um deles é o do toque, o outro é aquele do exorcista”. O diabo do toque é o diabo do conhecimento, da lucidez, da resistência e da liberdade do pensamento. Einstein provavelmente curtia esse toque, o Freud também. Mas se por acaso você venha a ter com o “outro” demônio, aí meu amigo, a culpa não é do rock não!

¹ DEIXA EU FALAR, FILHA DA PUTA!

Por: 

Escrito

Porque Eu Me Importo?!

Quando criança, era de praxe ouvir-se uma discussão acirrada dos meus vizinhos que moravam ao lado, todo fim de semana. Bastava o domingo raiar que eles começavam logo cedo a se estranharem. No começo, nada de mais, pequenas discussões acompanhadas de insultos, mas depois as coisas foram se intensificando para algo maior, como agressões físicas. Passado um tempo a rua inteira já estava a par da situação do casal. A violência já não se limitava mais as quatro paredes daquela residência. A avenida se tornara palco para aqueles que tem sede e fome de assistirem a uma certa destruiçãozinha. Eu como todos, observava todo o desenrolar daquelas cenas nada agradáveis, daquele perverso show de horrores. Escondido por trás da saia de minha mãe, apertava o braço dela e perguntava “mas ninguém vai fazer nada para ajudá-la?” e como recompensa recebia um “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” como resposta. Não é preciso ser nenhum sábio para saber que eu abominava aquele ato, que o achava inaceitável. Algumas semanas depois, na escola, um garoto com mais ou menos a minha idade sofria bullying por ter o peso acima da média, e adivinhem? Os professores e os outros alunos faziam vista grossa frente ao problema e se limitavam em tomar uma atitude que resolvesse a situação e acabasse de vez com as provocações.

Com o tempo, eu passei a repudiar os indivíduos que praticavam a violência ou qualquer tipo de dano psicológico, moral ou físico a outras pessoas. Me enojava o tipo de ser humano que usava de provocações baratas ou piadas para rebaixar ou menosprezar alguém em particular. Pessoas que usam a sua força como meio de intimidar, que se valem dos meios mais sujos e desprezíveis para obter o que querem, eram tidas por mim como seres quebrados, vazios e desmerecidos de compaixão ou piedade. Mas com o tempo eu percebi que esse tipo de pessoa não é grande problema do mundo ou o grande mal da sociedade. Existe um tipo mais perverso e insensível de ser humano. Você está duvidando de mim? Calma lá rapaz, vou lhe explicar direitinho. Recordando uma célebre frase de um escritor e poeta do qual eu já não lembro mais o nome: “Há dois tipos de pessoas ruins no mundo, as que fazem maldades e as que vêem o mal sendo feito e não fazem nada.” E creio, que para mim, o segundo tipo de pessoa são as mais perversas, pois assistem de camarote a insossa e cruel realidade que arrebata o próximo, sem se sentirem nada empáticas ou solidárias com as outras pessoas.

Durante muito tempo, eu pensei que ruins eram apenas aqueles que ameaçavam, assassinavam, roubavam , estupravam, mentiam, manipulavam e usavam de sua própria boa fé contra você mesmo. Mas eu percebi que a violência deles era aceitável, pois combinava com a personalidade que eles tinham, fazia parte do que eles eram. E que, ainda pior do que todas essas pessoas que agem assim, são as pessoas que assistem a tudo isso sem mover um dedo. Somos NÓS, os negligentes. Passei a entender que a verdadeira violência é ignorar o que acontece a nossa volta, bem diante de nossos olhos, quando na verdade podemos fazer bem mais do que imaginamos que podemos fazer. Você pode até querer se defender dizendo “sou uma pessoa boa, não pratico esse tipo de comportamento em meu cotidiano. sou limpo e justo perante os olhos do Pai.” Mas e quanto a sua vizinha que é violentada e abusada pelo marido semanalmente em sua rua? E sobre o garotinho desconfiado e cabisbaixo que sofre diariamente com os insultos dentro e fora da sala de aula, que perde o recreio escondido no banheiro, como refúgio do inferno fabricado pelos outros? E se você ainda preferir, qual foi o fim daqueles pobres gatinhos que no caminho de volta, da escola pra casa, você testemunhou dentro de uma caixa pequena de papelão nas mãos daquele homem grandão e sem nenhum brilho de vida nos olhos, prestes a ser arremessada dentro de um canal aberto que atravessa a cidade? Você fez algo a respeito, hein? Não? Nada? Pois é.

Você pode ver claramente que quase sempre podemos fazer alguma coisa, que algumas vezes, podemos mover a mão do destino e transformar e moldar as circunstâncias e realidades, deixando-as melhores. Mas escolhemos não fazer nada. Sentamos e assistimos, como um espectador conformado, o fim do mundo acontecer. E de que adianta? Porque se preocupar? Você pode simplesmente fechar os olhos e fingir que nada acontece. É uma escolha sua. De todo modo, pode ser que amanhã você passe da condição de espectador para vítima. As possibilidades existem e estão aí. Portanto, MOVA-SE! Tenha alguma ação, você não é uma árvore. Pare de ser tão cruel quanto aqueles que são os responsáveis pela barbárie de nossa sociedade, pare de contribuir involuntariamente para que a violência continue, pare de fazer vista grossa, e pela primeira vez, enxergue o que acontece a sua volta. O mundo precisa urgentemente de você.

Está nas suas mãos. A escolha é sua. Decida.

Escrito, Livros

Resenha: Perdão, Leonardo Peacock – Matthew Quick

Nas últimas 24 horas tornei-me refém de Leonard Peacock. Rendi-me completamente aos encantos de Matthew Quick e sua escrita brilhante e fascinante porque é exatamente isto o que ele apresenta em Perdão, Leonard Peacock.

Eu já havia lido outros  títulos do  autor, cujos temas também narram histórias maravilhosas e tocantes como Quase uma Rockstar,  O Lado Bom da Vida e A Sorte do Agora, mas já havia um tempo em que algumas opiniões me chamavam a atenção a respeito desse livro e confesso que no momento em que li tais opiniões, eu ainda não me sentia aberto e disponível para lê-lo. Acredito que não era o momento. Para ler e, consequentemente compreender a história criada por Matthew Quick era preciso desligar-se de tudo que estava ao meu redor. Era preciso se entregar inteiramente à história e, para isso, decidi que o momento certo só viria quando eu estivesse 100%  envolvido de corpo e alma somente e exclusivamente a esse maravilhoso conto. Encomendei um exemplar só para mim e esperei ansiosamente pela chegada do produto. Enfim, decidi que a espera tinha acabado. Era hora de se doar ao maravilhoso diálogo de Matthew.

Perdão, Leonard Peacock é um livro intenso que desperta sentimentos da mesma grandeza. É possível chorar com a tristeza e solidão descrita por Leonard. Mas ao mesmo tempo, Leonard consegue arrancar risos com suas ideias e atitudes impulsivas. Não se deixe enganar pelas aparências ao supor que o livro irá retratar a história de um jovem depressivo e melancólico. Nada na escrita de Matthew Quick é superficial, raso, impessoal. O livro levanta questões atuais e sérias que abordam a solidão de um jovem esquecido pela família e ignorado pelos colegas de classe. Perdão, Leonard Peacock vai além do óbvio, do previsível. Não estamos aqui falando de mais um livro que tem o bullying como tema principal. Estamos falando de algo bem mais sério. O tema principal do livro é a depressão e o estado emocional de um jovem que clama por ajuda.

Leonard Peacock é um jovem solitário e deprimido que decide por um fim a sua vida justamente na data de seu 18º aniversário. Leonard planeja primeiramente matar seu ex-amigo Asher e logo em seguida suicidar-se. Tudo está meticulosamente planejado na mente de Leonard. A arma utilizada será uma pistola P-38 usada pelo avô na 2ª Guerra Mundial. Mas, antes de dar fim ao seu sofrimento, Leonard decide presentear as quatro pessoas que ele mais considera em sua vida.

Walt é o primeiro deles. Um velho que vive sozinho e que passa a maior parte de seu tempo sentado na poltrona de sua casa assistindo os filmes em preto e branco de Bogart. A sua relação com o vizinho é muito próxima. Leonard tem em Walt a figura paterna, o carinho e atenção que ele jamais tivera dos próprios pais.

Linda, a mãe, é estilista de moda e não dá a mínima para Leonard. O pai passara boa parte de sua vida bebendo e se drogando. Sem mais nenhum apego à família ele simplesmente parte para algum canto da Venezuela. Desde muito cedo Leonard se acostumou a viver sozinho. Por isso ele não teme a morte, pois para Leonard todos já estão mortos. Algo curioso é que Leonard chega a essa conclusão observando o cotidiano das pessoas em atitudes comuns.

Outros presentes precisam ser entregues antes que Leonard dê fim a tudo que lhe atormenta. Todos os presentes estão embrulhados em um papel cor-de-rosa, não por um acaso, para compreender o que está detrás de tal simbologia, o leitor deverá ficar atento aos sinais que são apresentados ao longo da narrativa.

É difícil descrever o quanto esta história é grandiosa. Em todos os aspectos Matthew Quick nos convida a refletir sobre como estamos acostumados a viver no piloto automático, agindo como robôs, esquecendo do valor das coisas simples. É pelo olhar clínico de um jovem “problemático” que conseguimos ter a real noção da falta de amor e respeito ao próximo. Como não paramos para ouvir o outro. Talvez, seja esta a premissa mais forte apresentada ao longo da narrativa.

Apesar de todo seu desequilíbrio emocional Leonard nos passa uma lucidez, uma visão de mundo madura para um jovem de apenas 18 anos. O engraçado é que tive momentos que senti vergonha de ser quem eu era e de como eu me comportava diante das mesmas situações descritas pelo personagem. A única pessoa que Leonard realmente confia é Herr Silverman (seu professor de história e também um dos poucos amigos de Leonard) mas até mesmo o professor guarda um segredo por baixo das mangas compridas de sua camisa. Leonard não entende o motivo pelo qual o professor nunca usara nenhum tipo de camiseta. O segredo de Herr Silverman é um dos pontos marcantes da história. Mas nada é tão chocante quanto o segredo que Leonard guarda e que faz com que todo o seu sofrimento se justifique.

Matthew Quick tem uma escrita simples, ligeiramente ácida, nua e crua, explorando cada momento com avidez. Precisamos manter o controle para não deixar nada escapar. Cada palavra ganha um peso diferente.

No momento em que o segredo de Leonard é revelado tive a sensação de que o ar tinha parado de circular. Tudo é tão perturbador que não tenho como descrever a sensação sufocante que senti neste momento. Quando chegamos a esse ponto imaginamos que a história por si só se defina, mas é exatamente o contrário. Conseguimos compreender toda a complexidade que envolve o segredo de Leonard e o motivo pelo qual ele desejara cometer o homicídio-suicídio.

A maestria de Matthew não para por aí. O livro é repleto de notas de rodapé e faz com que o leitor possa conhecer uma história dentro de outra história. Não chega a ser confuso porque o autor dá continuidade aos fatos exemplificando-os de maneira clara e objetiva. Além das notas de rodapé que tornam a narrativa ainda mais rica, o autor explora a criatividade e inteligência de Leonard apresentando cartas que o próprio personagem escrevera para o seu “eu” no futuro. É simplesmente perfeito.

Eu poderia escrever cinco mil palavras para definir o quanto este livro é magnífico em toda sua grandeza de sentimentos, mas ainda assim não seria suficiente. Perdão, Leonard Peacock é um dos livros mais bonitos que já li. Eu poderia descrevê-lo como um livro louco, belo, incrível, fascinante, chocante, encantador, perturbador. Prefiro resumi-los em apenas uma única palavra: PERFEITO.

Perdão, Leonard Peacock é aquele livro que todo mundo precisa ler. É um livro para levar pra vida. Não há como não se sentir modificado de alguma forma. Nunca um abraço significou tanto para mim. Cinco estrelas e favorito, é claro.

Escrito, Inspiração

“Sinta a Dor”

Eu nunca fiz terapia nem tomei remédios, mas não tenho nada contra. A verdade é que muitas coisas aconteceram comigo, coisas boas e ruins. E eu precisaria de muitas palavras para explicar, mais palavras do que sou capaz de dizer.

Nunca fui uma pessoa violenta nem nada do tipo, embora conservasse uma revolta e inquietação ferrenha dentro de mim. Em segredo, sempre estive lidando com a depressão e ansiedade em meu interior. Sim, eu passo por crises de depressão e oscilações de humor regularmente, acho que é por isso que eu vejo o mundo por um ângulo diferente de como a maioria das pessoas vê. Também sou muito sensível.

No bairro em que cresci e do qual eu passei a maior parte de minha infância e adolescência, essas não eram características dignas de serem exibidas, de modo que as escondi por um longo tempo em minha vida. Eu fingia que não era quem eu era e, quando alguém tentava se aproximar de mim, eu escondia e não falava sobre isso abertamente. Em um bairro do qual eu fiz parte, você não fala abertamente sobre essas coisas. Houve momentos nos quais eu sentia que não tinha lugar pra mim no mundo. Muitas vezes, me sentia uma aberração ou um pária, embora eu fosse realmente bom em me integrar e interagir com as pessoas ao meu redor.

Eu achava vergonhoso falar de meus sentimentos e achava vergonhoso me sentir da forma como eu me sentia. Minha adolescência acabou sendo muito confusa e com bastante carga emocional por causa disso. Eu reprimia e ocultava o que sentia, porque pra sociedade ter sentimentos é uma coisa anormal. Pra sociedade não é bom que você ande por aí deprimido e cabisbaixo. Você logo virá um alvo fácil de críticas e julgamentos dos mais diversos e absurdos. Pra sociedade não é bom que você fale sobre esses assuntos, porque tudo que você tem que fazer é ser uma ovelha e obedecer. Fazer parte do rebanho. Vestir seu sorriso mais convincente e fingir descaradamente que está tudo bem, que não tem nada de errado.

Existe uma necessidade muito grande no mundo de se falar mais abertamente sobre esses assuntos, sobre doenças mentais. Porque se você parar e observar as pessoas na rua, você vai notar que quase todo mundo está no mesmo barco. Vai perceber os tiques nervosos, os olhares assustados, os passos apressados rumo a lugar-nenhum revelando a ansiedade intensa. E se você se esforçar um pouquinho mais, poderá notar também como é forte o ruído mental na cabeça de todas essas pessoas. Você cairá em si e verá que há muitos outros indivíduos lutando contra essas doenças o tempo todo. Daí a nossa urgência de ter mais conversas sobre esse assunto, porque muita gente tem estes problemas e se identifica bastante com esse tipo de temática, só se sentem um pouco inibidas para se abrirem de primeira. 

É interessante e desafiador falar sobre doenças mentais; e não estou me limitando aqui somente a doenças já popularmente conhecidas como a depressão e a ansiedade, mas a qualquer tipo de emoção conflitante que te impeça de aproveitar o momento PRESENTE, assim como ele é, livre de julgamentos, porque pode nos levar a um inicio de uma importante conversa; e é um ótimo ponto de partida para as pessoas dizerem “eu também”, o meu irmão, ou minha irmã, ou minha mãe. Em algum momento todo mundo se identifica.

Na maior parte do decorrer da vida, as pessoas percebem que há algo de errado com elas e com o mundo, mas preferem ignorar. Eu acho que de vez em quando devemos nos presentear com um belo de um tapa na cara, como quem diz: “Ei louco, acorde!”. Precisamos nos forçar a ver que não estamos felizes, que estamos levando uma vida morna e deprimente, que temos problemas sérios de ansiedade e que realmente não estamos vivemos da forma que queremos. Isso é uma coisa muito difícil de admitir, mas temos que fazer, não há outro jeito. Acredito que se você quer alcançar a verdade, você tem que estar vulnerável. Se você quer crescer, se quiser descobrir quem você é, se quiser crescer emocionalmente, você tem que ser vulnerável. Tem que admitir que está fragilizado e começar a trabalhar. É nosso dever pegar tudo que está dando errado e fazer dar certo. Devemos tentar de qualquer forma. Porque é pela sua rachadura que a luz penetra em você. Então, dê uma chance a nós, os desajustados. Dê uma chance pra si mesmo, porque como eu disse antes, estamos todos no mesmo barco.

Escrito

Na dúvida entre o amor?

É tão estranho. Uma hora parece querer muito, outra hora parece não querer nada. Eu não posso adivinhar o que você sente, não posso nem sentir por você. Dizem que é complicado entender a cabeça de uma mulher mas é mais difícil ainda entender os sentimentos dos homens.

Uma hora quer e a outra hora não quer, ou pelo menos demonstra não se importar. Eu já tentei não gostar de você, já tentei evitar qualquer outro tipo de sentimento mas não dá, não tenho controle sobre mim quando se trata de ti. Não consigo ficar chateada por bastante tempo, que é só você chegar sorrindo que eu me derreto toda e vai ser sempre assim.

Talvez a base de tudo seja isso mesmo, o seu jeito de sorrir. O jeito que você me olha, o jeito que você fala.. Eu abriria mão de tudo por apenas isso. Gostar demais, esse é o meu problema. Nunca gosto pouco ou “mais ou menos”, é sempre muito! É bom se sentir apaixonada, sentir borboletas no estômago, frios na barriga, coração acelerado… Mas ao mesmo tempo é ruim não saber o que a outra pessoa está sentindo, o que ela realmente quer e se ela quer algo…

Os romances não são como nos filmes, que acabam em casamento e todo mundo feliz. Há altos e baixos nos quais nem todo mundo consegue passar intacto. Afinal, quem nunca se sentiu infeliz? Quem nunca sofreu por amor? Quem nunca se sentiu vazio? Nada é como queremos ou esperamos. Sempre esperamos mais das pessoas e criamos coisas em nossa mente que achamos que devem acontecer mas isso só serve de ilusão e quando você menos espera e sua esperança por fim acaba, a vida te surpreende. E dessa maneira a vida continua, e por mais que evitemos, passaremos por isso várias e várias vezes. Afinal, quando se ama, estamos conscientes do risco que corremos.”

Escrito

CONFIANÇA

Victoria Livinsgtone. Viajante no mundo.

Nasceu na África do Sul. Morou na Inglaterra.

Sua última morada: Estados Unidos.

Professora de espanhol em uma universidade de lá.

Residência provisória hoje: São Paulo.

Victoria é uma vitória para ela mesma e para os que a rodeiam.

Estuda doutorado com intercâmbio no Brasil.

Colabora com artigo para alguma revista online no mundo.

Vitoriosa, essa garota. Amou o Brasil.

Entretanto foi morar com uma brasileira nada confiável.

“Ostenta muito. Como… Como… Gosta muito de dinheiro.”

Com seu jeito de falar meio americanizado latinoamericano,

lamenta pela companheira de morada.

Pela descrição, parece que a pessoa em questão cobra por tudo.

É a legítima brasileira do “jeitinho malandro” conhecido lá fora.

A confiança é algo que se conquista com o tempo. Ou não.

“Que triste, Victoria!” Eu disse: “Com tantos brasileiros bons,

foi se deparar justamente com uma pessoa dessas…”

Será que há algo mesmo de muito comum e natural em grande parte

dos brasileiros, em querer se aproveitar das situações?

Ganhar sempre se aproveitando de fragilidade alheia?

Vale lembrar que nossos políticos saíram deste meio.

É assim que se aprende. Sinto muito por isso.

“Creia, Victoria, há muito mais gente boa do que ruim no Brasil.”

– eu disse a ela, tentando convencer a mim também.

E ainda penso que o problema não está no brasileiro, mas na humanidade.

Ela ainda ficará até o final do ano, mas pretende se mudar esse mês.

“Não posso mais tolerar aquela pessoa. Impossível a convivência.

Não há dinheiro suficiente para ela…”

Vá, Victoria. Voe para outros sítios. Conheça pessoas boas.

Desinteressadas do vil metal, que a acolha.

É possível que exista. Em algum lugar existe.

O problema é que num país conhecido lá fora pelo “jeitinho brasileiro”

de se aproveitar, torna-se difícil confiar em alguém.

Eu, brasileira, nascida e criada aqui sou reticente quanto ao ser humano.

Daqui e de outras paragens

Quando se conhece muitas pessoas,

começamos a caminhar com certa desconfiança.

Acredito mesmo que esse tipo de gente há em todo lugar do mundo.

Como há os bons também.

Cabe-nos pedir ao destino que nos ajude a encontrá-los.

Quem sabe a sorte a ajude, Victoria. Espero que sim.

E que vá embora com essa impressão apagada da lembrança.

O bom da memória é que ela tende a trazer os momentos bons,

suprimindo os ruins, quando rememoramos as pessoas

com as quais caminhamos… Tomara que eu esteja certo!

Escrito, Inspiração

CARTA A JUDAS

Ei, caro Judas…

Sabia que ainda o “malham” no sábado de aleluia?

Tem um monte de gente que o critica dois mil anos depois,

mas não perde a chance de ganhar

um quinhão para se dar bem.

Você tem que vir e explicar que o que fez,

estava escrito que faria.

Como seria a história se não tivesse obedecido

a imposição do seu Pai?

Você foi pressionado, parece-me.

Poderia ter escolhido não fazer.

Mas fez. Problema seu. Pagou.

As pessoas dos séculos que vieram não entenderam.

No séc. XXI ainda não compreendem bem isso.

Querem seguir seu exemplo, e o superam muito.

O ouro hoje é de quantidade imensurável.

Suas trinta moedinhas são nada,

perto do vil metal a que se apegam seus seguidores.

Hoje seriam seus chefes.

Você não entende nada de barganha e ganância, Judas.

Precisa vir aprender aqui. Em muitas igrejas.

Você não imagina o quanto se ganha

em nome do homem que você “traiu”.

Músicas, shows, bênçãos recebidas, souvenires…

Precisa lembrar-lhes de que você beijou porque amava,

devolveu as moedas, arrependeu-se (tarde demais)

e cometeu suicídio pela vergonha do que fez.

Hoje, nestes casos, não o cometem.

Se o fizessem, seria porque perderam o metal,

e o vazio do bolso lhes sufocou o pescoço.

Mas não. Não cometem suicídio.

Não têm por que. Prosperam muito.

Tudo em nome Daquele que você trocou

por trinta malditas moedas de prata.

Sinto muito, Judas.

Você não beira aos pés dos novos mercadores de Jesus.

Se visse, iria suicidar-se de novo.

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