Escrito

Porque Eu Me Importo?!

Quando criança, era de praxe ouvir-se uma discussão acirrada dos meus vizinhos que moravam ao lado, todo fim de semana. Bastava o domingo raiar que eles começavam logo cedo a se estranharem. No começo, nada de mais, pequenas discussões acompanhadas de insultos, mas depois as coisas foram se intensificando para algo maior, como agressões físicas. Passado um tempo a rua inteira já estava a par da situação do casal. A violência já não se limitava mais as quatro paredes daquela residência. A avenida se tornara palco para aqueles que tem sede e fome de assistirem a uma certa destruiçãozinha. Eu como todos, observava todo o desenrolar daquelas cenas nada agradáveis, daquele perverso show de horrores. Escondido por trás da saia de minha mãe, apertava o braço dela e perguntava “mas ninguém vai fazer nada para ajudá-la?” e como recompensa recebia um “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher” como resposta. Não é preciso ser nenhum sábio para saber que eu abominava aquele ato, que o achava inaceitável. Algumas semanas depois, na escola, um garoto com mais ou menos a minha idade sofria bullying por ter o peso acima da média, e adivinhem? Os professores e os outros alunos faziam vista grossa frente ao problema e se limitavam em tomar uma atitude que resolvesse a situação e acabasse de vez com as provocações.

Com o tempo, eu passei a repudiar os indivíduos que praticavam a violência ou qualquer tipo de dano psicológico, moral ou físico a outras pessoas. Me enojava o tipo de ser humano que usava de provocações baratas ou piadas para rebaixar ou menosprezar alguém em particular. Pessoas que usam a sua força como meio de intimidar, que se valem dos meios mais sujos e desprezíveis para obter o que querem, eram tidas por mim como seres quebrados, vazios e desmerecidos de compaixão ou piedade. Mas com o tempo eu percebi que esse tipo de pessoa não é grande problema do mundo ou o grande mal da sociedade. Existe um tipo mais perverso e insensível de ser humano. Você está duvidando de mim? Calma lá rapaz, vou lhe explicar direitinho. Recordando uma célebre frase de um escritor e poeta do qual eu já não lembro mais o nome: “Há dois tipos de pessoas ruins no mundo, as que fazem maldades e as que vêem o mal sendo feito e não fazem nada.” E creio, que para mim, o segundo tipo de pessoa são as mais perversas, pois assistem de camarote a insossa e cruel realidade que arrebata o próximo, sem se sentirem nada empáticas ou solidárias com as outras pessoas.

Durante muito tempo, eu pensei que ruins eram apenas aqueles que ameaçavam, assassinavam, roubavam , estupravam, mentiam, manipulavam e usavam de sua própria boa fé contra você mesmo. Mas eu percebi que a violência deles era aceitável, pois combinava com a personalidade que eles tinham, fazia parte do que eles eram. E que, ainda pior do que todas essas pessoas que agem assim, são as pessoas que assistem a tudo isso sem mover um dedo. Somos NÓS, os negligentes. Passei a entender que a verdadeira violência é ignorar o que acontece a nossa volta, bem diante de nossos olhos, quando na verdade podemos fazer bem mais do que imaginamos que podemos fazer. Você pode até querer se defender dizendo “sou uma pessoa boa, não pratico esse tipo de comportamento em meu cotidiano. sou limpo e justo perante os olhos do Pai.” Mas e quanto a sua vizinha que é violentada e abusada pelo marido semanalmente em sua rua? E sobre o garotinho desconfiado e cabisbaixo que sofre diariamente com os insultos dentro e fora da sala de aula, que perde o recreio escondido no banheiro, como refúgio do inferno fabricado pelos outros? E se você ainda preferir, qual foi o fim daqueles pobres gatinhos que no caminho de volta, da escola pra casa, você testemunhou dentro de uma caixa pequena de papelão nas mãos daquele homem grandão e sem nenhum brilho de vida nos olhos, prestes a ser arremessada dentro de um canal aberto que atravessa a cidade? Você fez algo a respeito, hein? Não? Nada? Pois é.

Você pode ver claramente que quase sempre podemos fazer alguma coisa, que algumas vezes, podemos mover a mão do destino e transformar e moldar as circunstâncias e realidades, deixando-as melhores. Mas escolhemos não fazer nada. Sentamos e assistimos, como um espectador conformado, o fim do mundo acontecer. E de que adianta? Porque se preocupar? Você pode simplesmente fechar os olhos e fingir que nada acontece. É uma escolha sua. De todo modo, pode ser que amanhã você passe da condição de espectador para vítima. As possibilidades existem e estão aí. Portanto, MOVA-SE! Tenha alguma ação, você não é uma árvore. Pare de ser tão cruel quanto aqueles que são os responsáveis pela barbárie de nossa sociedade, pare de contribuir involuntariamente para que a violência continue, pare de fazer vista grossa, e pela primeira vez, enxergue o que acontece a sua volta. O mundo precisa urgentemente de você.

Está nas suas mãos. A escolha é sua. Decida.

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