Escrito, Livros

Resenha: Perdão, Leonardo Peacock – Matthew Quick

Nas últimas 24 horas tornei-me refém de Leonard Peacock. Rendi-me completamente aos encantos de Matthew Quick e sua escrita brilhante e fascinante porque é exatamente isto o que ele apresenta em Perdão, Leonard Peacock.

Eu já havia lido outros  títulos do  autor, cujos temas também narram histórias maravilhosas e tocantes como Quase uma Rockstar,  O Lado Bom da Vida e A Sorte do Agora, mas já havia um tempo em que algumas opiniões me chamavam a atenção a respeito desse livro e confesso que no momento em que li tais opiniões, eu ainda não me sentia aberto e disponível para lê-lo. Acredito que não era o momento. Para ler e, consequentemente compreender a história criada por Matthew Quick era preciso desligar-se de tudo que estava ao meu redor. Era preciso se entregar inteiramente à história e, para isso, decidi que o momento certo só viria quando eu estivesse 100%  envolvido de corpo e alma somente e exclusivamente a esse maravilhoso conto. Encomendei um exemplar só para mim e esperei ansiosamente pela chegada do produto. Enfim, decidi que a espera tinha acabado. Era hora de se doar ao maravilhoso diálogo de Matthew.

Perdão, Leonard Peacock é um livro intenso que desperta sentimentos da mesma grandeza. É possível chorar com a tristeza e solidão descrita por Leonard. Mas ao mesmo tempo, Leonard consegue arrancar risos com suas ideias e atitudes impulsivas. Não se deixe enganar pelas aparências ao supor que o livro irá retratar a história de um jovem depressivo e melancólico. Nada na escrita de Matthew Quick é superficial, raso, impessoal. O livro levanta questões atuais e sérias que abordam a solidão de um jovem esquecido pela família e ignorado pelos colegas de classe. Perdão, Leonard Peacock vai além do óbvio, do previsível. Não estamos aqui falando de mais um livro que tem o bullying como tema principal. Estamos falando de algo bem mais sério. O tema principal do livro é a depressão e o estado emocional de um jovem que clama por ajuda.

Leonard Peacock é um jovem solitário e deprimido que decide por um fim a sua vida justamente na data de seu 18º aniversário. Leonard planeja primeiramente matar seu ex-amigo Asher e logo em seguida suicidar-se. Tudo está meticulosamente planejado na mente de Leonard. A arma utilizada será uma pistola P-38 usada pelo avô na 2ª Guerra Mundial. Mas, antes de dar fim ao seu sofrimento, Leonard decide presentear as quatro pessoas que ele mais considera em sua vida.

Walt é o primeiro deles. Um velho que vive sozinho e que passa a maior parte de seu tempo sentado na poltrona de sua casa assistindo os filmes em preto e branco de Bogart. A sua relação com o vizinho é muito próxima. Leonard tem em Walt a figura paterna, o carinho e atenção que ele jamais tivera dos próprios pais.

Linda, a mãe, é estilista de moda e não dá a mínima para Leonard. O pai passara boa parte de sua vida bebendo e se drogando. Sem mais nenhum apego à família ele simplesmente parte para algum canto da Venezuela. Desde muito cedo Leonard se acostumou a viver sozinho. Por isso ele não teme a morte, pois para Leonard todos já estão mortos. Algo curioso é que Leonard chega a essa conclusão observando o cotidiano das pessoas em atitudes comuns.

Outros presentes precisam ser entregues antes que Leonard dê fim a tudo que lhe atormenta. Todos os presentes estão embrulhados em um papel cor-de-rosa, não por um acaso, para compreender o que está detrás de tal simbologia, o leitor deverá ficar atento aos sinais que são apresentados ao longo da narrativa.

É difícil descrever o quanto esta história é grandiosa. Em todos os aspectos Matthew Quick nos convida a refletir sobre como estamos acostumados a viver no piloto automático, agindo como robôs, esquecendo do valor das coisas simples. É pelo olhar clínico de um jovem “problemático” que conseguimos ter a real noção da falta de amor e respeito ao próximo. Como não paramos para ouvir o outro. Talvez, seja esta a premissa mais forte apresentada ao longo da narrativa.

Apesar de todo seu desequilíbrio emocional Leonard nos passa uma lucidez, uma visão de mundo madura para um jovem de apenas 18 anos. O engraçado é que tive momentos que senti vergonha de ser quem eu era e de como eu me comportava diante das mesmas situações descritas pelo personagem. A única pessoa que Leonard realmente confia é Herr Silverman (seu professor de história e também um dos poucos amigos de Leonard) mas até mesmo o professor guarda um segredo por baixo das mangas compridas de sua camisa. Leonard não entende o motivo pelo qual o professor nunca usara nenhum tipo de camiseta. O segredo de Herr Silverman é um dos pontos marcantes da história. Mas nada é tão chocante quanto o segredo que Leonard guarda e que faz com que todo o seu sofrimento se justifique.

Matthew Quick tem uma escrita simples, ligeiramente ácida, nua e crua, explorando cada momento com avidez. Precisamos manter o controle para não deixar nada escapar. Cada palavra ganha um peso diferente.

No momento em que o segredo de Leonard é revelado tive a sensação de que o ar tinha parado de circular. Tudo é tão perturbador que não tenho como descrever a sensação sufocante que senti neste momento. Quando chegamos a esse ponto imaginamos que a história por si só se defina, mas é exatamente o contrário. Conseguimos compreender toda a complexidade que envolve o segredo de Leonard e o motivo pelo qual ele desejara cometer o homicídio-suicídio.

A maestria de Matthew não para por aí. O livro é repleto de notas de rodapé e faz com que o leitor possa conhecer uma história dentro de outra história. Não chega a ser confuso porque o autor dá continuidade aos fatos exemplificando-os de maneira clara e objetiva. Além das notas de rodapé que tornam a narrativa ainda mais rica, o autor explora a criatividade e inteligência de Leonard apresentando cartas que o próprio personagem escrevera para o seu “eu” no futuro. É simplesmente perfeito.

Eu poderia escrever cinco mil palavras para definir o quanto este livro é magnífico em toda sua grandeza de sentimentos, mas ainda assim não seria suficiente. Perdão, Leonard Peacock é um dos livros mais bonitos que já li. Eu poderia descrevê-lo como um livro louco, belo, incrível, fascinante, chocante, encantador, perturbador. Prefiro resumi-los em apenas uma única palavra: PERFEITO.

Perdão, Leonard Peacock é aquele livro que todo mundo precisa ler. É um livro para levar pra vida. Não há como não se sentir modificado de alguma forma. Nunca um abraço significou tanto para mim. Cinco estrelas e favorito, é claro.

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