Escrito, Inspiração

“Sinta a Dor”

Eu nunca fiz terapia nem tomei remédios, mas não tenho nada contra. A verdade é que muitas coisas aconteceram comigo, coisas boas e ruins. E eu precisaria de muitas palavras para explicar, mais palavras do que sou capaz de dizer.

Nunca fui uma pessoa violenta nem nada do tipo, embora conservasse uma revolta e inquietação ferrenha dentro de mim. Em segredo, sempre estive lidando com a depressão e ansiedade em meu interior. Sim, eu passo por crises de depressão e oscilações de humor regularmente, acho que é por isso que eu vejo o mundo por um ângulo diferente de como a maioria das pessoas vê. Também sou muito sensível.

No bairro em que cresci e do qual eu passei a maior parte de minha infância e adolescência, essas não eram características dignas de serem exibidas, de modo que as escondi por um longo tempo em minha vida. Eu fingia que não era quem eu era e, quando alguém tentava se aproximar de mim, eu escondia e não falava sobre isso abertamente. Em um bairro do qual eu fiz parte, você não fala abertamente sobre essas coisas. Houve momentos nos quais eu sentia que não tinha lugar pra mim no mundo. Muitas vezes, me sentia uma aberração ou um pária, embora eu fosse realmente bom em me integrar e interagir com as pessoas ao meu redor.

Eu achava vergonhoso falar de meus sentimentos e achava vergonhoso me sentir da forma como eu me sentia. Minha adolescência acabou sendo muito confusa e com bastante carga emocional por causa disso. Eu reprimia e ocultava o que sentia, porque pra sociedade ter sentimentos é uma coisa anormal. Pra sociedade não é bom que você ande por aí deprimido e cabisbaixo. Você logo virá um alvo fácil de críticas e julgamentos dos mais diversos e absurdos. Pra sociedade não é bom que você fale sobre esses assuntos, porque tudo que você tem que fazer é ser uma ovelha e obedecer. Fazer parte do rebanho. Vestir seu sorriso mais convincente e fingir descaradamente que está tudo bem, que não tem nada de errado.

Existe uma necessidade muito grande no mundo de se falar mais abertamente sobre esses assuntos, sobre doenças mentais. Porque se você parar e observar as pessoas na rua, você vai notar que quase todo mundo está no mesmo barco. Vai perceber os tiques nervosos, os olhares assustados, os passos apressados rumo a lugar-nenhum revelando a ansiedade intensa. E se você se esforçar um pouquinho mais, poderá notar também como é forte o ruído mental na cabeça de todas essas pessoas. Você cairá em si e verá que há muitos outros indivíduos lutando contra essas doenças o tempo todo. Daí a nossa urgência de ter mais conversas sobre esse assunto, porque muita gente tem estes problemas e se identifica bastante com esse tipo de temática, só se sentem um pouco inibidas para se abrirem de primeira. 

É interessante e desafiador falar sobre doenças mentais; e não estou me limitando aqui somente a doenças já popularmente conhecidas como a depressão e a ansiedade, mas a qualquer tipo de emoção conflitante que te impeça de aproveitar o momento PRESENTE, assim como ele é, livre de julgamentos, porque pode nos levar a um inicio de uma importante conversa; e é um ótimo ponto de partida para as pessoas dizerem “eu também”, o meu irmão, ou minha irmã, ou minha mãe. Em algum momento todo mundo se identifica.

Na maior parte do decorrer da vida, as pessoas percebem que há algo de errado com elas e com o mundo, mas preferem ignorar. Eu acho que de vez em quando devemos nos presentear com um belo de um tapa na cara, como quem diz: “Ei louco, acorde!”. Precisamos nos forçar a ver que não estamos felizes, que estamos levando uma vida morna e deprimente, que temos problemas sérios de ansiedade e que realmente não estamos vivemos da forma que queremos. Isso é uma coisa muito difícil de admitir, mas temos que fazer, não há outro jeito. Acredito que se você quer alcançar a verdade, você tem que estar vulnerável. Se você quer crescer, se quiser descobrir quem você é, se quiser crescer emocionalmente, você tem que ser vulnerável. Tem que admitir que está fragilizado e começar a trabalhar. É nosso dever pegar tudo que está dando errado e fazer dar certo. Devemos tentar de qualquer forma. Porque é pela sua rachadura que a luz penetra em você. Então, dê uma chance a nós, os desajustados. Dê uma chance pra si mesmo, porque como eu disse antes, estamos todos no mesmo barco.

Previous Post Next Post

You Might Also Like

12 Comments

Leave a Reply

Powered by themekiller.com